Porque é que o Brasil produz tantos minerais espetaculares

Não é acaso nem sorte: é geologia. Um olhar sobre as três razões — rocha antiga, vulcões e muito tempo — que fazem do Brasil o maior fornecedor de gemas do mundo

Basta abrir qualquer catálogo de minerais para o comprovar: ametistas gigantes, turmalinas de todas as cores, topázios imperiais, esmeraldas, quartzos rosa... uma parte enorme das peças mais espetaculares que circulam no mercado leva a etiqueta "Brasil". Não é marketing nem coincidência geográfica: é o resultado de, num mesmo país, coexistirem várias histórias geológicas distintas, cada uma capaz, por si só, de gerar um tipo de mineral excecional.

Minerais bonitos do Brasil

O Brasil não é um único jazigo gigante, mas sim a soma de várias peças: no centro e no leste do país há rocha muito antiga e muito estável, ideal para formar cristais enormes; no sul houve, há milhões de anos, uma atividade vulcânica descomunal que deixou geodas por toda a parte; noutros pontos do país a rocha foi mudando muito lentamente por dentro, sem chegar a fundir-se, dando origem a esmeraldas; e a tudo isto soma-se uma tradição mineira de séculos que soube encontrar e aproveitar cada uma destas histórias.

Numa frase: O Brasil tem, por um lado, rocha muito antiga — com mais de mil milhões de anos — que deu tempo mais do que suficiente para crescerem cristais enormes; e, por outro, zonas vulcânicas muito mais recentes no sul que geraram geodas de ametista e ágata à escala industrial. Poucos países reúnem estes dois cenários ao mesmo tempo, e nenhum o faz num território tão vasto.
Minerais bonitos do Brasil

Uma rocha tão velha que teve tempo de sobra

Boa parte do centro e do leste do Brasil assenta sobre um bloco muito antigo da camada sólida mais externa da Terra — a crosta terrestre, a "casca" de rocha sobre a qual vivemos —, que há mais de mil milhões de anos praticamente não se move nem volta a fundir-se. Para termos uma ideia: enquanto noutras zonas do planeta a crosta tem sido reciclada vezes sem conta por terramotos, vulcões e montanhas novas, aqui esse "solo" está imóvel desde antes de existirem os dinossauros, os peixes ou até as primeiras plantas terrestres.

Essa tranquilidade geológica é exatamente o que é preciso para duas coisas: por um lado, permite que o magma arrefeça muito lentamente sob a terra, dando tempo para que os cristais cresçam grandes e bem formados em vez de ficarem minúsculos; por outro, oferece milhões de anos de erosão suave, sem grandes catástrofes, que vão libertando pouco a pouco minerais da rocha original e concentrando-os em rios e sedimentos. Nenhuma das duas coisas acontece depressa: são precisos éons de calma.

Minerais bonitos do Brasil

Minas Gerais: a maior fábrica de gemas do planeta

O estado de Minas Gerais, no centro-leste do Brasil, concentra — segundo a revista Gems & Gemology do GIA — a maior quantidade do mundo de um tipo de rocha especial chamada pegmatito, muito conhecida por dar berilo gema, crisoberilo, topázio, turmalina e kunzite. Estas rochas são exploradas há mais de 400 anos e, só no último século, o Brasil chegou a abastecer a maior parte do mercado mundial destas cinco gemas.

Um pegmatito é, em poucas palavras, o que resta quando um magma quase acabado de arrefecer se concentra em água e em elementos pouco frequentes, em vez de solidificar como um granito vulgar. Esse "resíduo" especial, aliado a um arrefecimento muito lento, é o que permite que os cristais cresçam muito maiores — e com mais variedade de cores — do que em qualquer outra rocha. De facto, nenhum outro tipo de rocha no planeta dá tanta variedade e quantidade de gemas como os pegmatitos.

O resultado é um catálogo quase único: a zona de Belo Horizonte, em Minas Gerais, produz esmeralda, água-marinha, turmalina rosa e verde, topázio imperial, alexandrita e amazonite, todas associadas a estas mesmas rochas. Por isso o Brasil produz uma das maiores variedades de gemas e pedras semipreciosas do mundo.

Uma mesma família de rochas — os pegmatitos de Minas Gerais — é capaz de dar, em pontos diferentes, turmalina rosa, topázio dourado, água-marinha azul e kunzite lilás: a variedade não vem de misturar jazigos diferentes, mas sim de pequenas mudanças de composição dentro de uma mesma rocha à medida que arrefece.

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O outro Brasil: vulcões mais jovens e geodas de ametista

Muito longe de Minas Gerais, no extremo sul do país, a história é completamente diferente e muito mais recente: há cerca de 130 milhões de anos (quando já existiam os dinossauros), uma das maiores erupções vulcânicas da história da Terra cobriu boa parte do sul do Brasil com camadas de lava basáltica, umas atrás das outras, formando uma zona conhecida como Serra Geral.

Nessa lava, ao arrefecer, ficaram presas bolhas de gás de grande dimensão. Com o passar do tempo, água subterrânea rica em sílica — o principal componente do quartzo, também presente na areia — foi entrando nessas bolhas e preenchendo-as pouco a pouco, camada a camada: primeiro ágata, depois quartzo, que com vestígios de ferro cristalizou como ametista. O resultado são as geodas gigantes pelas quais a região de Ametista do Sul, no sul do Brasil, é conhecida em todo o mundo como o maior produtor de geodas de ametista do planeta.

Uma geoda forma-se, basicamente, em dois passos. Primeiro cria-se o "vazio": uma bolha de gás que fica presa dentro da rocha de lava enquanto esta arrefece. Depois, muito mais lentamente, a água subterrânea vai preenchendo esse vazio de fora para dentro, deixando camadas de mineral umas sobre as outras até quase não sobrar espaço vazio. Por isso, uma geoda de ametista pode chegar a pesar várias toneladas.

Esse mesmo tipo de lava explica também os enormes jazigos de ágata de Salto do Jacuí, um pouco mais a sul, onde é extraída a céu aberto.

Minerais bonitos do Brasil

Esmeraldas: quando a rocha muda por dentro sem chegar a fundir-se

Nem todas as esmeraldas brasileiras nascem em pegmatitos (aquelas rochas de arrefecimento lento que vimos antes, em Minas Gerais). Em zonas como a Baía ou Goiás formam-se de forma diferente, através daquilo a que os geólogos chamam metamorfismo: um processo em que uma rocha já existente no terreno, sujeita durante milhões de anos a calor e pressão muito fortes, vai mudando pouco a pouco por dentro sem chegar a fundir-se por completo, acabando convertida num novo tipo de rocha. Por isso, a estas rochas chama-se rochas metamórficas.

Quando nesse processo há crómio presente no meio envolvente — um elemento que também dá a cor verde a outras pedras —, esse crómio vai tingindo os cristais de berilo que se estão a formar, e o resultado é a esmeralda. É exatamente o contrário do que acontece com os pegmatitos: ali o mineral nasce de um magma que arrefece; aqui nasce de uma rocha sólida que se transforma sem chegar a derreter-se.

É um pouco como amassar pão: não é preciso derreter a farinha para que se transforme em algo diferente, basta calor, pressão e muito tempo a trabalhá-la. Com a rocha passa-se algo parecido — só que em vez de minutos, o processo dura milhões de anos — e o resultado são minerais novos que não existiam na rocha original.
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E ainda: um país enorme com séculos de mineração

A estas três razões geológicas — rocha antiga, vulcões do sul e rocha que se transforma sem fundir-se — há que somar mais dois fatores, nenhum deles geológico. O primeiro é o tamanho: o Brasil é um país imenso, e quanto mais território há, mais provável é que, em algum ponto, se reúnam, por pura estatística, as condições exatas para formar um jazigo excecional.

O segundo é humano: a mineração faz parte da cultura brasileira desde a época colonial, com gerações de garimpeiros que foram localizando jazigos no terreno, além de uma indústria moderna que desenvolveu experiência técnica ao longo de séculos. Sem essa tradição mineira, boa parte destes jazigos continuaria por descobrir sob a selva ou sob a rocha vulcânica.

Em resumo: O Brasil não é um jazigo, mas sim vários países geológicos distintos reunidos num mesmo território. A rocha antiga do centro-leste explica a turmalina, o topázio, a água-marinha ou a kunzite de Minas Gerais; os vulcões do sul explicam a ametista e a ágata; e a rocha que se transforma sem fundir-se explica as suas esmeraldas. Nenhum fator, por si só, bastaria: é a soma dos três, num país tão grande, que faz do Brasil o maior produtor de gemas do mundo.

Perguntas frequentes

Porque é que Minas Gerais concentra tantas gemas diferentes?

Porque tem a maior quantidade do mundo de um tipo de rocha especial, o pegmatito, que se forma quando um magma quase acabado de arrefecer se enriquece em água e em elementos pouco comuns. Isso permite que cresçam cristais grandes e variados: turmalina, topázio, água-marinha, crisoberilo e kunzite, entre outros.

Como se formam as geodas de ametista do sul do Brasil?

Em dois passos: primeiro forma-se um vazio, uma bolha de gás presa ao arrefecer uma corrente de lava há cerca de 130 milhões de anos; depois, água subterrânea vai preenchendo esse vazio muito lentamente com camadas de ágata e quartzo, que acaba por cristalizar como ametista no centro.

Todas as gemas brasileiras vêm do mesmo tipo de jazigo?

Não. O Brasil reúne pelo menos três origens muito distintas: rocha antiga e de arrefecimento lento no centro-leste, vulcões muito mais recentes no sul, e rocha que foi mudando por dentro durante milhões de anos sem chegar a fundir-se, dando origem a esmeraldas em zonas como a Baía ou Goiás.

Porque é que as esmeraldas do Brasil não nascem da mesma forma que as turmalinas ou o topázio?

Porque seguem um caminho diferente: não vêm de um magma que arrefece, mas sim de rocha já existente que, sujeita a calor e pressão muito fortes durante milhões de anos, se transforma por dentro sem chegar a fundir-se (o que se chama metamorfismo). Se nesse processo houver crómio por perto, tinge de verde os cristais que se estão a formar e dá origem à esmeralda.

É o Brasil o único país com este tipo de jazigos?

Não, há pegmatitos e correntes de lava basáltica noutras partes do mundo. O que distingue o Brasil é ter as duas coisas ao mesmo tempo, em grande escala, além de séculos de tradição mineira para as localizar.

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