A calcite óptica: a pedra que guiava os vikings no mar

Como um cristal transparente pode ter ajudado os navegadores nórdicos a encontrar o sol mesmo entre nuvens e nevoeiro

Muito antes de a bússola magnética chegar à Europa, os vikings já atravessavam o Atlântico Norte para chegar à Islândia, à Gronelândia e até à América do Norte. Navegavam guiando-se pelo sol, pelas estrelas e pelo seu profundo conhecimento do mar. Mas, e nos dias nublados, tão frequentes nessas latitudes? As sagas nórdicas falam de uma misteriosa "pedra solar" (sólarsteinn) capaz de revelar a posição do sol mesmo através das nuvens.

Dado importante: desde 1967, a hipótese mais aceite entre os investigadores é que essa "pedra solar" era espato da Islândia, uma variedade de calcite transparente muito abundante na Escandinávia e na Islândia.
A calcite óptica guiava os vikings

O que torna a calcite tão especial?

A calcite óptica (ou espato da Islândia) tem uma propriedade física pouco comum: a birrefringência. Quando a luz atravessa o cristal, divide-se em dois raios, criando uma imagem duplicada de qualquer coisa observada através dele. Pode comprová-lo colocando um cristal de calcite transparente sobre um texto impresso: as letras aparecerão duplicadas.

Além disso, a calcite é polarizante: as duas imagens que produz têm brilho diferente consoante a orientação do cristal em relação à luz. E aqui está a chave para a navegação: a luz do céu, mesmo estando nublado, é polarizada pela atmosfera de forma previsível em relação à posição do sol.

Como se usava? o navegador erguia o cristal em direção ao céu e girava-o lentamente. Quando o brilho das duas imagens se igualava, o cristal ficava alinhado com a posição do sol, mesmo que este estivesse oculto por nuvens, nevoeiro ou abaixo do horizonte.
A calcite óptica guiava os vikings

A ciência moderna põe a lenda à prova

Durante décadas, a ideia da pedra solar foi considerada quase uma lenda sem base real. Tudo mudou com estudos como o do físico Guy Ropars e da sua equipa na Universidade de Rennes, que em 2011 demonstraram, através de experiências, que um cristal de calcite, montado num simples dispositivo de madeira com um orifício central, permitia localizar o sol com notável precisão, mesmo em condições de céu encoberto.

Simulações posteriores, publicadas na Royal Society Open Science, calcularam que, usando a pedra solar a cada uma ou duas horas durante uma travessia, os navegadores vikings poderiam ter alcançado a Gronelândia com sucesso na grande maioria das suas viagens.

Atenção: a identidade exata da pedra solar viking continua a ser objeto de debate científico. Outros minerais, como a cordierite ou a turmalina, também foram propostos como candidatos. Até à data, não existe nenhuma prova arqueológica direta e inquestionável de que os vikings usassem calcite para navegar; a evidência é sobretudo experimental e textual (as sagas).
A calcite óptica guiava os vikings

Uma pista inesperada: o naufrágio isabelino

Em 2013 foi anunciada a descoberta de um cristal de calcite entre os destroços de um navio inglês naufragado em 1592 ao largo da ilha de Alderney, no Canal da Mancha. Curiosamente, esse navio já transportava canhões de ferro e provavelmente bússolas magnéticas, o que sugere que, mesmo séculos depois dos vikings, os marinheiros podiam continuar a usar cristais de calcite como método de reserva, talvez porque o ferro a bordo pudesse desviar a agulha da bússola.

Curiosidade geológica: o espato da Islândia perfeito e sem defeitos, o mesmo tipo usado em instrumentos ópticos de precisão, já chegou a ser vendido por mais de 1000 $ por quilo. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi inclusivamente utilizado no fabrico de miras de bombardeamento.
A calcite óptica guiava os vikings

Perguntas frequentes

A calcite óptica e o espato da Islândia são a mesma coisa?

Sim. O espato da Islândia é o nome tradicional dado à variedade transparente e incolor de calcite (carbonato de cálcio, CaCO₃), célebre pela sua forte birrefringência.

Está comprovado com certeza que os vikings usavam a pedra solar?

Não de forma definitiva. As sagas mencionam-na e as experiências modernas demonstram que o método funcionaria, mas não existem achados arqueológicos vikings que confirmem o seu uso direto como instrumento de navegação.

A calcite funciona para encontrar o sol mesmo à noite ou com o sol abaixo do horizonte?

Sim, dentro de certos limites: a luz do crepúsculo continua polarizada de forma a permitir estimar a posição do sol antes do amanhecer ou depois do pôr do sol.

Onde se encontra hoje calcite deste tipo?

A Islândia e a Escandinávia são as localizações históricas mais conhecidas, embora o espato da Islândia de qualidade óptica também se encontre noutros depósitos pelo mundo.

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